terça-feira, 20 de setembro de 2011

Trechos do Diário (2): ensino em Sinthiouroudji

Morei 3 anos no Senegal, mais precisamente em uma aldeia no extremos sul do país chamada Sintiouroudji. Certa vez estava passando próximo a uma pequena escola (as escolas nas aldeias, normalmente, são todas feitas de palha sustentada por bambus) e, ao ouvir o professor fazer uma pergunta para a classe, fiquei espantado ao ver que todos os alunos se prontificaram para responder.

Uau! Esse professor deve ser muito bom. Que sensação gostosa e que satisfação de poder ter toda a classe assim, tão "ávida" por conhecimento! E assim, em uma dessas vezes em que passava por perto, decidi, com a permissão do professor (seu nome era Mr. Ndiay), entrar e assistir um pouco da aula.

Logo entendi tudo! Ele dava aula com um pedaço de pau na mão. Ao fazer uma pergunta, quem não quisesse responder seria por não saber logo, apanharia. E quem levantasse o braço para responder e respondesse errado, apanharia também. Solução das crianças para apanhar menos? Todos levantam o braço na esperança de não serem chamados...

Obviamente não foi fácil pra mim ver aquilo. As crianças levando pauladas no rosto, chorando enquanto voltavam para seus lugares. Minha primeira reação foi levantar e abordar o professor com certa autoridade até, mas para ele, aquilo era algo perfeitamente normal. Pensei logo nos pais. Como reagiriam se soubessem? Será que eles não se juntavam para resolver esse tipo de coisa e eles mesmos dessem uma surra no Mr. Ndiay, de preferência com o mesmo pedaço de pau que ele batia nos filhos deles?!

Mas aí eu descobri que existem barreiras culturais. Até certo ponto consigo e devo "interferir" em uma outra cultura e aquilo para eles, seja para o Mr Ndiay (e todos os outros professores), para as crianças (sim, elas eram acostumadas. Na verdade, só paravam depois de apanharem) ou para os pais (certa vez os pais me deram um pedaço de pau para acalmar os filhos deles que estavam muito bagunceiros enquanto eu os ensinava em uma escolinha de basquete...). Enfim, para o contexto daquela região, era perfeitamente normal! Mas vai fazer isso aqui no Brasil...

Um comentário:

  1. nossa, realmente é muito diferente, as barreiras culturas falam muito mais alto!! eu também morei na aldeia e ver essas coisas é barra....
    mano vc escreveu isso para a JMM? no livro que estao fazendo do Radical? seria muito bom!! beijao
    lidi Radical-Perú

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