quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça..."


Domingo, 13h. No meio de uma grande avenida em Fortaleza, Ceará, um entregador de panfletos (daqueles que ficam no sinal) estava estendido no chão, logo após ter sido atropelado por uma picape que entrou onde não devia, por dizer que no domingo "é mais tranquilo" e dava pra fazer aquilo...isso, com um sol de rachar e panfletos voando...E eu estava indo almoçar em um restaurante próximo quando vi a cena. QUE RAIVA! É um sentimento que me toma, me dá vontade de ir até o motorista petulante do carro e passar com o carro dele por cima! Por que ele acha que pode fazer o que quer? Por que muitos de nós o achamos? Não é assim muitas vezes no trânsito? E com as nossas finanças? E nos relacionamentos? Quem nos disse que somos especiais? Melhores do que os outros? É por pagarmos um IPVA mais caro, é?

Quando me veio aquela raiva e eu imaginei várias cenas grotescas na minha cabeça, consegui me controlar e tirar alguma lição daquilo. Existem formas e formas de se manifestar. De querer "fazer a diferença". Posso sair esmurrando tudo e todos ou posso encontrar uma alternativa mais saudável e mais duradoura de protesto. Já vimos os que passam fome em protesto; vão às ruas; xingam; panfletam. largam o carro e vão de bicicleta; pregam cartazes, etc. A questão aqui é: de que forma você tem procurado lidar com as coisas que te angustiam? Tomemos o vídeo que postei no começo. Quando paramos pra pensar, não faz sentido? Agora, vamos agir. Não só compartilhar, mas no mínimo constranger a pessoa que você vê que parou na vaga de deficientes ou idosos...

Vemos no Facebook todas as manifestações sobre os professores, ou os políticos, ou correntes de email sobre crianças que precisam de dinheiro pra alguma cirurgia impossível e nós vamos compartilhando, encaminhando, e só. Vamos nos levantar, fazer a diferença, aproveitar nosso potencial, nossos contatos, pegar o que nos traz angustia e transformar em um catalizador. Levantar a bandeira de algo que você, de fato, vista a camisa.
"Bem aventurados os que tem fome e sede de justiça..." (Mateus 5.6) e não ficam só olhando as coisas acontecerem. Tenho certeza que tem uma boa obra bem ai do seu lado, com seu nome escrito, pronta pra ser realizada por você. E como dizia Amaury Fontenele: "Mas fazê o quê? Tem tanta coisa errada, mas fazê o quê?! Descruzar os braços só pra começar..."

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Trechos do Diário - "da pizza ao maffet..."

Quando estava no seminário preparativo para a África, dentre outras coisas, a nossa alimentação era, de certa forma, bem controlada. No nosso almoço, por exemplo, os homens só podiam comer 350g e as mulheres, 300g. Não que fossemos passar fome na África, mas porque seria bem menos farto e diversificado e, como estávamos em um treinamento, precisávamos nos acostumar. Então, nada de guloseimas, lasanhas, sorvetes, calzones, pizzas, tortas, etc. Era bem controlado (essa questão da alimentação, por sinal, foi algo especialmente difícil. Algumas vezes, com fome, me pegava imaginando mordendo um misto quente e puxando o queijo que vinha entre os dentes, enquanto salivava...).

Enfim, em setembro de 2005, no meu aniversário de 19 anos, meus pais foram me visitar no seminário e aí eles conseguiram furar alguns "cercos" e mesmo quebrar algumas regras na época e levaram não só eu, mas os meus outros amigos Radicais (15 pessoas) para sair. Onde? Pra um rodízio de pizzas!! Meu Deus! Como ficamos felizes!! E que presente aquele! Matar a saudade dos pais e, ao mesmo tempo, matar a saudade de comer pizzas!!

Tempos depois, eu já estava no Senegal há quase 2 anos, meus pais foram me visitar de novo. Viram um Diogo diferente, fisicamente, espiritualmente, psicologicamente, cognitivamente... (os detalhes dessa visita eu conto no meu livro que está em "fase de construção"...). E ao levá-los para a aldeia, pedi para as mulheres fazerem o Maffet ("grosso modo", pedaços de carne no molho de amendoim, banhando o arroz com batatas). Pra mim, de longe, era o melhor prato que eu comia lá! Negócio de festa! Maravilhoso! Eu, literalmente, lambia todos os dedos ao final da refeição! E eu queia oferecer isso aos meus pais e minha irmã. Pra quê?

E aqui vai mais um lembrete que aprendi na "marra": valorizar cada fatia de cada coisa que se come! Não desperdiçar. Não exagerar. Lembrar do outro não é necessariamente passar fome com o outro, mas comer reconhecendo a benção que é cada mordida, cada gole, cada mastigada e ser mordomo disso, cuidar daquilo que se tem e, podendo, compartilhar também.