domingo, 21 de agosto de 2011

Muito além dos escombros...

   No dia 12 de janeiro de 2010, um forte terremoto de magnitude 7 devastou o Haiti, matando 350 mil pessoas, ferindo outras 400 e deixando mais de 1 milhão de desabrigados.
Hoje eu estou aqui, 1 ano depois do terremoto, um ano depois de, literalmente, uma mudança sísmica nesse país e fico me perguntando: até onde foi essa mudança? Quão profundas as rachaduras vão? A idéia aqui não é me aprofundar em questões políticas econômicas; tem pessoas muito mais capacitadas para tal. O que me proponho a fazer é simplesmente trazer um olhar leigo, porém apaixonado, e que entrou nas tendas que hoje são chamadas de casas enquanto os haitianos esperam que algo aconteça pra lhes devolver ao menos paredes que não sejam feitas de lona e não tenham os símbolos da ONU, Unicef, Cruz Vermelha ou alguma ONG famosa. Eles esperam ter um espaço deles.

As ruas da capital, Porto Príncipe, são muito semelhantes as ruas de algumas capitais africanas, com muitos carros amassados, um trânsito caótico, mas sem acidentes e brigas, muitas vendinhas de rua, vendedores ambulantes, etc. O que o terremoto veio adicionar a essa paisagem já bem diversificada foram os prédios rachados e tombados, as fissuras no asfalto, a crescente quantidade de pessoas na rua a qualquer instante devido ao desemprego e às péssimas condições de morada e, em todo lugar também,  os acampamentos, locais onde se vê dezenas, centenas e até milhares de tendas abrigando famílias haitianas.
O povo haitiano é mestre na arte de viver. Ou, como é o caso nesse último ano, SOBREviver. Ir às tendas, sentir o calor das 14h lá dentro, conversar com eles, ver as suas crianças, comer a comida, beber a água, andar naquelas ruas...tudo isso traz um novo referencial de prioridades e de valores. Infelizmente, hoje poucas organizações ajudam o Haiti. Alguns meses depois do terremoto, a mídia parou de mostrar a realidade lá e nós paramos de “comprar a idéia”. Com isso, o Haiti saiu das nosas lembranças e das nossas conversas, deixando o povo por conta própria.
O haitiano consegue se reerguer, mas precisa de um empurrãozinho. Precisa de apoio pra o novo governo (que tomou posse no último sábado), precisa de ajuda para uma reestruturação econômica, precisa de empregos, precisa de moradas, precisa ser ouvido e visto.
Estive como tradutor em uma equipe médica. 95% das pessoas estava anêmica, 80% das mulheres com infecção vaginal e mais de 50% estava depressivo, angustiado, sem vontade de nada, nem de lutar contra as doenças que lhe afligiam. É como se se acostumassem com a situação em que se encontravam e fossem simplesmente sobrevivendo, deixando a vida acontecer, simplesmente.
Mas também encontramos aqueles que com o terremoto, tiveram não só suas vidas e bens destruídos, mas os seus corações foram abalados de forma que eles se despertaram e entenderam que as melhores pessoas pra ajudar o seu povo é o próprio haitiano; são eles. E fazem orfanatos, conseguem água, comida, ajuda de fora, contatos estrangeiros, ajudam a reconstruir escolas, hospitais, postos de saúde, igrejas, etc...e eles nos ensinam muita coisa.

Acredito que podemos mudar o Haiti. Nós podemos e nós iremos!”. Essa fala de um pastor haitiano que morava em um acampamento com outras 70.000 pessoas tem que ter algum impacto nas nossas vidas que são muitas vezes egoístas (não só com o nosso dinheiro, mas com o nosso tempo, com nossos sorrisos, com a água que bebemos ou gastamos no chuveiro, etc...) e pequenas.

E aí me pergunto: se acontecesse um terremoto como esse aqui, nas nossas vidas, bem no nosso mundo ensimesmado, como reagiríamos? De que forma aprenderíamos? Como agiríamos em relação ao outro? No Haiti, muitos estão simplesmente resignados, muitos roubam, muitos não fazem nada...mas tem esses poucos que querem transformação, que querem fazer a diferença e sabem que não podem e nem devem ficar sempre esperando a ajuda de fora, sabem que precisam mudar pra que sejam transformadores, sabem que a hora é agora.
Não sei de que forma você enxerga o mundo. 
Não conheço a sua cosmovisão. Não sei quais são as suas prioridades. E, sinceramente, não tenho nenhum interesse em saber. O que quero poder dizer é que precisamos parar, parar antes que fiquemos CEGOS pra o que está ao nosso redor, cegos pras nossas transformações, cegos pra o que podemos fazer, cegos para o diferencial que podemos trazer. Alguém falou: quanto serei mudado até que mude?! E a questão é essa. Qual vai ter que ser o tamanho do terremoto pra que a tua vida mude ao ponto de conseguir te tirar da zona de conforto e te fazer enxergar, de uma vez por todas, que existe um universo ao lado, pronto pra ser explorado, pra aprender e te ensinar, pra ser humano no processo magniífico da vida.
"E disse Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim." João 14.6

5 comentários:

  1. Muito bom ;) acho que de tanto ser falado, soa como clichê, mas é aquela coisa, que sejamos a mudança que queremos ver no mundo, como já falou Ghandi. As mudanças mais profundas e mais significativas ocorrem de dentro pra fora.
    Diogsss, como sempre, se garantindo no que escreve! sempre tou por aqui dando uma lida nos teus posts, parabénnns!! hehe :***
    Milena F.

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  2. *Gandhi
    Milena F.

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  3. Pois é..tem alguns clichês que sempre devem continuar... hehe Florescer onde estiver plantado!
    Valews, Milena!! :**

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  4. Maravilha Diogo!

    Deus continue te inspirando. E aqui aproveito para citar Joana de Angelis: "O bem não tem preço, pois que, à semelhança do amor, igualmente não tem limite". Beijos, Neuza.

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